domingo, 26 de abril de 2009

Sonhos de um Pequeno Príncipe


Já se passara muito tempo depois que ele viera à Terra pela primeira vez.
A redoma que guardara a flor, protegendo-a do frio, do vento forte ainda estava ao seu lado; agora sem tanta utilidade...
A flor levara em seu sono a imagem de todas as flores existentes na cabeça do principezinho. Era como se, agora, ao céu faltassem todas as estrelas - pois ela sempre lhe fôra única.
Tinha-lhe construído apreço.
Amor mesmo.
Sua partida fôra dura. A sorte é que ainda lhe restavam os pôres-do-sol.
Amava o pôr-do-sol.
E, em seu minúsculo planeta, podia ver quantos pôres-do-sol quizesse em um só dia. Bastava ir afastando-se na direção leste.
Nesses últimos tempos de solidão, depois que a flor partira, tinha visto incontáveis pôres-do-sol por dia. Era bem verdade aquela frase de que quando estamos tristes gostamos de olhar o pôr-do-sol.
Fôra nesses dias que sonhara a Terra.
Lembrara da raposa. Sentira a sua falta mais que nunca. Aprendera a amá-la à distância.
Foi então que pensou voltar a Terra mais uma vez.
Quem sabe pudesse viver ao lado do seu amor, olhar a cor do trigo que se embala ao vento. Quem sabe pudessem produzir pisadas diferentes que significassem convites ao convívio um do outro.
Pensara ainda olhar o mar, descobrir as estrelas vistas da Terra, brincar dessas brincadeiras de crianças, de super-hérois - feitos Batman e Robin.
Há muito que desejava perder a sua condição principesca.
Ela lhe era pesada.
Tomava-lhe os movimentos.
Distanciava-lhe do mundo dos outros.
Trazia-lhe dores de alma.
Queria viver o cativa-me.
Desejava dividir alegrias com a Raposa.
Mas, qual não fora sua surpresa ao perceber que isso já não lhe era mais possível.
Depois de tanto tempo, a Raposa criara seu próprio mundo. Não que não lhe amasse ainda, mas tinha outras prioridades, outros que fazeres, outros amores...
No mundo dos iguais as coisas são assim.
As oportunidades são múltiplas.
O Príncipe perdera para a distância.
A Raposa não pôde esperar tanto.
Não por escolha, mas pelo contexto, pela convivência com outros mais normais, com outros mais reais que um Príncipe de casulo.
Isso tudo fora fatal para que novos amores se criassem para ela.
Não podia mais ser apenas sua.
Tinha outros.
Ao Príncipe restou-lhe o fado de voltar vazio ao seu planeta.
Mas, ainda feliz pela Raposa, pelos novos amores por ela conquistados, por saber que sempre podiam serem amigos - mesmo sem serem exclusivos.
Voltava aos pôres-do-sol. Agora, tinha mais motivos para vê-los.
Quanto às nuves, que sempre via ao ceu na hora do pôr-do-sol, elas sempre teriam a forma de uma Raposa que mora ao longe, em um outro lado do universo, exatemente naquele ponto onde acabam todas as esperanças de um pobre Pequeno Príncipe.

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