
Chegara a primavera...
Sabia não porque conferira a data no calendário, mas pelas mudanças que sabia presenciar, sentir...
As vozes dos pássaros que cantavam à janela tornaram-se mais sonoras, o vento que fazia vibrar as cortinas do seu quarto trazia consigo o cheiro das flores da estação.
Nessa época, percebia que a luz do dia, aquela que quase lhe tirava da prisão de escuro, era marcada por uma maior intensidade de cor.
Fôra assim que aprendera a primavera, atraves do manifesto de traços que essa ia deixando na natureza. Pela alegria reinante que teimava tocar todos os seres.
Fôra assim também que aprendera muitas coisas, não com os olhos, mas com o coração.
Amava a primavera.
Sonhava com ela em seus sonhos.
Sonhava cores, vôos, borboletas, pássaros...
Mesmo sem ter a certeza que as cores, os vôos, os pássaros e as borboletas dos seus sonhos correspondiam aos do mundo dos olhos, sentia-se feliz por vê-los. Afinal tinha consigo a certeza que a melhor forma de se ver é com os olhos da alma.
A primavera que descobrira em seus sonhos era a primavera do coração.
O amor pela primavera nascera com as borboletas.
Com os olhos dos outros aprendera que essas - as borboletas - conseguem pontilhar de vida e de cores os lugares onde passam.
Quando pedia a alguém para lhe falar sobre esses pequenos insetos percebia que todos lhe falavam apenas coisas bonitas.
A graça do vôo; a elegância dos bailes nupciais; o universo de cores que saltam de suas asas, parecendo até querer roubar dos olhos da gente toda a nossa atenção para a mágica que se desprende em matizes.
Falavam ainda da suavidade de sua existência, do amor gratuito que roubam da gente, da alegria das crianças que correm atrás delas, fascinados por suas cores e formas.
Era assim que todo mundo via borboleta.
Parecia que ninguém sabia ou não queria saber a outra história que a borboleta esconde. Pareciam não saberem suas fraquezas e fragilidade de vida.
Aquela fraqueza de viver não mais que poucos dias.
Pois vida de borboleta é assim.
Após romper o envólucro que lhe aprisiona em forma de casulo e que lhe liberta da condição de lagarta restam-lhe apenas poucas horas para dar sentido a sua vida, encher os campos de cores e alegrar os olhos de quem as vê passar em vôos que parecem nunca findar.
Ninguém parecia lembrar, ao menos não lembravam quando lhe falavam , que vida de borboleta é passageira e que para isso há de se ser lagarta antes.
Talvés não lhe falassem por que isso não importava de fato.
Afinal não importa o que fomos, mas o que somos.
Para toda lagarta há sempre uma chance de se tornar borboleta.
Achava-se meio lagarta, mas não queria ser lagarta para sempre.
Não sentia tanta falta da vista que nunca fora dada aos seus olhos - nascera cega - a não ser nesses momentos de primavera em que sentia vontade de ver as borboletas.
Por isso aprendera a ver com o coração.
Mas, o que realmente sentia falta era de poder sair da prisão do seu quarto, da prisão do escuro. Essa prisão que lhe conferia vida de lagarta.
Gostaria de um dia ser lembrada pelas pessoas como alguém que teve vida de borboleta. Alguém que foi capaz de voar espaços, encher os campos de cores, fazer as crianças sorrirem com a sua presença.
Alguém que beijara as flores, que se alimentara do néctar da alegria de viver.
Para isso acontecer teria que construir o seu casulo, ter forças para rompe-lo e por fim secar suas asas ao sol.
O primeiro passo era fazer escolha, tomar coragem.
Afinal ser borboleta é escolha, mas escolha da gente e não dos outos.
Nunca lera que havia uma obrigação das lagartas virarem crisálidas e por fim borboletas.
Quando chegava o tempo certo, o tempo de morrer a lagarta que existia em si, essas viraram borboletas.
Não importava não ter luz nos olhos, tinha muito luz no coração, seria capaz de transformar-se em borboleta.
Naquele instante fazia a sua escolha!

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