
Sem nenhum aviso ele caíra...
Caíra assim, tão rápido quanto fôra construído...
Carta por carta.
Carta por carta.
Agora - vendo todas as cartas espalhadas pela mesa, outras pelo chão da sala - tomava consciência da efemeridade das coisas.
Quando começou a construir o seu castelo sua preocupação única fôra vê-lo findo.
Assim, passara a erguer o emaranhado de toda a estrutura.
Carta por carta...
Não importava o material utilizado para isso.
Os quatro naipes do baralho, sem nenhum critério de escolha, foram sendo utilizados nesse processo - e outros naipes também teriam sido usado se ainda houvessem.
Era comum ver-se nas paredes da obra um dois de paus ao lado de um valete de ouro. Ou quem sabe uma dama de copas sob um rei de espadas...
Como os seus sonhos, as paredes do castelo iam alto.
Os sonhos que cresciam em sua cabeça tal qual o castelo iam construindo formas, contornos, delineios, cores, visibilidade...
Cada peça se arrumava e parecia encaixar-se perfeitamente até o momento da janela.
Bem, não exatamente até o momento da janela, mas até o instante em que a rajada de vento desavisada invadiu a sala, janela adentro.
Foi nesse momento que o castelo caiu.
Carta por carta...
E ficara alí olhando para elas, estático.
Mórbido em si mesmo.
Temia agora pelos sonhos.
Eles eram tais os castelos de carta que passara a vida toda a construir, vendo-os ruir um por um.
Não se pode esquecer de sonhar.
Os sonhos são fundamentais para a vida.
Só não podemos construi-los de qualquer forma.
Há de se ter uma observância nos materiais que se usa.
Há de se ter também sempre o cuidado de escolher o lugar certo onde construí-los.
Não se deve construir os castelos dos nossos sonhos perto das janelas.
Elas dão passagem ao vento.
Ventos fortes derrubam castelos, espalham cartas sobre a mesa, sobre o chão.
Ergue os teus sonhos dentro das muralhas da confiança, do respeito ao próximo. Fundamentado no bem comum, na segurança da família.
Esses elementos impedem a passagem dos ventos da maldade, da falsidade, da descrença.
Não importa que algumas cartas se espalhem pelo chão.
Sempre haverá a oportunidade de construir um novo castelo, de reerguer os teus sonhos.

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