
Era mês de fevereiro, hora de pôr-do-sol...
Mas, não Pôr-do-sol de dia que se finda, daqueles que ponteiam o céu com um prisma de cores.
Não era também pôr-do-sol do tipo que deixa atrás de si promessas de um amanhacer carregado de vozes de pássaros e de brisa matinal que assobia nos umbrais das janelas...
Era pôr-do-sol de alma.
A noite há tempos que se esboçara na alma, carregando junto a si sombras melancólicas do orgulho ferido e das descrenças. Marcando o espírito pela nostalgia de um passado imaginário...
O regato junto a alma secara suas águas nos últimos dias, as árvores revestiam-se de cores catédricas assumindo uma posição de recolhimento.
Mas, não era ainda inverno...
Contudo, tinha-se a sensação de frieza, aquela que enrijece os nervos, que entumece a pele, que nos coloca em posição fetal e que nos empurra para dentro de nós mesmos.
Pôr-do-sol de alma é assim...
Não há promessas de um dia que se renova, nem o multicolorido que acompanha o suspirar do sol que adormece.
Há sombras que se esgueiram pelas avenidas do pensamento, que constroem moradas nos sentimentos e que transformam o coração em noites de agonias que nunca se findam.
Quando por fim reina o silêncio da noite já instalada há de se ter chuvas torrenciais, daquelas que transformam os olhos em torrentes e o rosto em cachoeiras por ondem as lágrimas sulcam.
A chuva há de lavar a alma, libertar as correntes, tornar o corpo leve...
A melancolia agora reinante é acalantada pelo assobio do vento gélido...
As portas e corredores do espírito ragem em uma agonia sibilante...
Sente-se a saudade das cores do dia, da alegria do movimento das coisas, da beleza da vozes dos pássaros...
Sente-se a saudade do viver, do ser...
Pensa-se pequeno, vê-se ínfimo...
Paradoxo de existência reina absoluto...
Onde estou, para onde vou?
Quem me tornarei?
Quem sou além do pôr-do-sol que ora se instala em minha alma...?

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